As Altas Habilidades são uma benção ou um fardo? Parte I
Desde pequeno, até a 7ª série do Ensino Fundamental, sempre tirei 9 ou 10, quase sem o menor esforço. Sempre li muito desde pequeno, de 05 a 10 livros por semana. Lia às vezes, um livro de 300 páginas numa noite.
Depois de devorar os mais de mil livros da biblioteca particular do meu pai, parti para a do colégio em que estudava. No começo, as bibliotecárias pensaram que eu só pegava os livros e não lia, porque retirava dois livros num dia de manhã e devolvia na outra manhã. Em pouco tempo me chamaram na Diretoria para “dar satisfações” da constante retirada de livros.
Tirei da mochila os dois livros de umas 100 páginas cada um que ia devolver naquela manhã, coloquei na mesa da diretora e disse: “- A Sra. pode abrir qualquer livro e me perguntar alguma coisa sobre ele”. A Diretora me olhou e percebeu a mancada da bibliotecária e nunca mais me importunaram.
Lembro que quando tinha 11 anos, comecei a ler uma Enciclopédia Conhecer – hoje seria o equivalente a Enciclopédia Barsa, e a terminei inteirinha em 6 meses.
Até hoje, não sei se foi um bom ou mau negócio ter lido tudo aquilo. Parecia uma benção saber sempre de qualquer assunto que a professora apresentasse na sala de aula. Frequentemente já entendia mais que a professora, e geralmente atrapalhava a aula ou a constrangia, porque eu acrescentava inúmeros detalhes e explicações que nem ela sabia.
Aí, começaram os problemas. Enquanto os meninos e meninas brincavam, jogavam bola ou conversavam, eu lia livros, queria discutir ciências, eletrônica, astronomia, geografia, política, tecnologia, gramática e, é claro que não havia entendimento. Éramos crianças, mas eu já tinha conversas de adultos e não tinha adultos para conversar.
Nunca me considerei um superdotado ou gênio, apenas um leitor voraz.
Algumas professoras principiantes me davam “duras” na aula, me mandando ficar quieto e “deixar a turma aprender por si própria”, mas estavam tentando evitar de ser exposto o seu desconhecimento da matéria. Coitadas das estagiárias de magistério que passaram pela minha sala. Imagine você nervoso com o estágio e pega um aluno que sabe de tudo e aponta o que você havia esquecido ou errado na explicação.
Respondia provas escritas e orais só de ouvir a matéria explicada pelos professores. Os colegas sentavam longe de mim o mês inteiro. No dia das provas, quase se estapeavam para sentar ao meu redor. Era um momento feliz para mim. Eu me sentia importante e “querido” por eles. Só que estava redondamente enganado. Só estavam interessados em copiar minhas respostas.
Em dez minutos eu respondia tudo e ficava fingindo por quase uma hora e meia para que eles pudessem colar. Passadas as provas, tornavam a se afastar. Era um “conhecido útil” deles, não um amigo.
Quando fui ficando mais adolescente, comecei a perceber o tamanho do fardo que carregava, pois o distanciamento social e a discriminação do restante dos colegas aumentava exponencialmente. Ninguém tinha lido mais que 100 livros. Eu tinha lido mais de 2 mil. Pouquíssimos tiravam 10 em algumas matérias, depois da 4ª série. Eu tirava 10 em todas. Os colegas saiam passear e brincar em grupo, eu lia livros trancado em casa. Todo mundo se convidava para festinhas de aniversário. A mim, ninguém convidava.
A exclusão tornou-se evidente. Hoje falam do bullying nas escolas. Estão 30 anos atrasados… Os apelidos incomodavam: CDF, gênio, puxa-saco. Na 7ª série, comecei a tirar notas baixas propositadamente. Quase apanhei em casa. Não lia mais nada dos livros e matérias dos cadernos. Fingia que copiava a matéria do quadro-negro, mas só rabiscava.
Não entreguei trabalhos de disciplinas, ainda assim, conseguia nota para passar, sem nenhum esforço.
Minhas notas caíram, minha popularidade subiu. Estava dentro da média. Média bem baixa, diga-se de passagem, mas pertencia um pouco ao grupo.
Pena que tinha perdido uns 06 anos de convívio com as demais crianças.
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Tags: Altas Habilidades, bullying, educação especial, leitura, superdotado
21 de novembro de 2008 às 6:15 pm
Peço a gentileza do autor deste texto entrar em contato. Sou mãe de um menino com altas habilidades. Identifico que ele tem sofrido na escola e em outros ambientes por ser diferente. Tento ajudá-lo, mas não tenho conseguido. Se o autor pudesse viajar no tempo e voltar a encontrar consigo mesmo com 7 anos de idade, que dicas daria a si mesmo para passar pela experiência de maneira mais feliz?