O maior problema das Altas Habilidades não é estimular o Portador - Parte III

Outro problema enfrentado logo no principiar da vida do Portador de Altas Habilidades – PAH, refere-se a grande frustração ao perceber que “seus ídolos” (pais, professores, avós, tios queridos, amigos, heróis de desenhos) também são muito lentos no aprendizado e às vezes burros, porque ela, embora criança já sabia há meses do assunto e o seu “exemplo de referência” nem entendeu a pergunta sobre o assunto.

Já pensou no que um adulto sente quando “a sua fonte de referência lhe falta ou fica desmoralizada”? Como fica uma criança que percebe que seus “guias de referência”, seus “heróis”, seus “mestres”, são menos capazes que ela?

- “Ah! O vô é legal, mas ele não sabe nada do que eu pergunto!”

- “Mamãe é o máximo, mas quando pergunto alguma coisa da escola, ela não sabe nada.”

- “Papai é legal, mas não entende nada do que eu falo!”

- “Meus amiguinhos são legais, mas só querem brincar de futebol, carrinhos e figurinhas. Eu quero fazer experiências e falar sobre animais, plantas, rios, astronautas e outros assuntos interessantes.”

- “A professora é bonita e querida, mas ela me manda ficar quieto quando eu pergunto alguma coisa que ela não sabe.”

- “O Super-Homem é de mentira porque eu aprendi na escola que não dá para respirar embaixo d’água.”

Constatações como essas vão se multiplicando em seu cérebro. Noções de respeito à autoridade, respeito e consideração ao próximo, obediência e humildade vão caindo uma a uma, pela auto-constatação, mesmo que equivocada, de que ela, a criança PAH, é mais inteligente que o amiguinho da mesma idade. É mais inteligente que o irmão maior, é mais inteligente que o pai, mãe, avós, tios e vizinhos. E o que falar da professora que haviam lhe dito que iria lhe ensinar?

Como ter respeito e consideração por pessoas que sabem “menos que ela”?

A admiração é um dos pilares do relacionamento humano. Se você der carinho, qualquer criança vai adorar e gostar de você, mas a criança admira e portanto respeita, quem lhe dá mais do que isso.

Ela quer sua orientação sobre a vida, sobre a escola, sobre as figurinhas do álbum, sobre como brincar e montar os brinquedos. Ela quer trocar informações sobre suas coisinhas, importantes para nós ou não. Ela quer “um guia”, um “referencial do quê e de como fazer”.

Essa pessoa que lhe dá uma “luz”, um “caminho a seguir”, pode ser o tio legal, o pai, a mãe, um vô ou vó. Essa é a pessoa que ela respeita e que gosta de estar próxima, porque lhe ensina e estimula.

A criança PAH é 10 vezes mais exigente nesse ponto, já que quer alguém que lhe traga sempre algum novo desafio (sejam micagens, piadas, mágicas, desenhos, lápis coloridos, recortes, brinquedos, livros, atividades ou simples conversas).

Quando um adulto não representar alguém de quem ela possa obter alguma “informação ou novo conhecimento”, ela aceita a adulação (carinho), mas se manda para longe daquele “meloso”, porque ele não lhe acrescenta nada. Ele não é interessante!!!! Seja o pai, mãe ou a professora.

Já o filho do vizinho (normal ou até “meio burro”, mas arteiro e mais velho) que vive fazendo experiências e traquinagens passa a ser a “referência a ser seguida”.

Ele acrescenta ao PAH novas experiências, transpõe os limites não compreendidos pelo PAH, porque mesmo que seja de maneira irresponsável, o amigo mais velho permite ao PAH soltar sua criatividade e testar seus conhecimentos e dúvidas, seja soltando o gato da janela para ver se cai nas quatro patas, seja colocando uma bombinha para estourar numa lata ou colocando fogo em alguma coisa.

O pai que só quer jogar bola ou andar de bicicleta, não é um “cara legal”. Ele faz coisas normais.

Dessa busca por referências de conhecimento e de testar os limites e conhecimentos adquiridos, surge o fato de muitas vezes, os Portadores de Altas Habilidades – PAH serem confundidos com crianças arteiras ou “impossíveis”.

Jogar o gato pela janela do apartamento para um adulto é uma maldade sem tamanho. Para a criança PAH é “uma experiência científica” para validar a informação que obteve, mas que ela tem dúvidas se realmente o gato cairá sobre as quatro patas.

- Pobre bichano!!!!

Na verdade, estão atrás de um referencial de conhecimento. São traquinagens para a sociedade, mas para ela são validações e experiências para novos conhecimentos e desafios ao statu quo que não é compreensível ou aceitável sob sua ótica . O normal, o corriqueiro ela já sabe. Ela quer é investigar por si própria o limite ou a veracidade das informações.

Pelo lado do Portador de Altas Habilidades, todas estas questões podem ser administradas através de acompanhamento profissional de psicólogas ou pedagogas, além do envolvimento da própria família, que deve preparar-se para longos anos de muitas vitórias sobre desafios impensáveis, mas também de fartas frustrações do PAH.

Talvez, em função das condições financeiras da família seja mais difícil ou até impossível bancar o acompanhamento profissional, mas os pais e familiares podem obter informações suficientes para proporcionar um ambiente aceitável, prazeroso e estimulante para o desenvolvimento do PAH, que se possuir um “porto seguro” em sua casa ou família, enfrentará com mais ânimo e coragem as rejeições e frustrações com a sociedade.

Restam os problemas e as frustrações do ambiente extra-familiar, que trataremos nos próximos textos.

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