Ataque de abelhas melíferas - Porque elas atacam as pessoas?

Há quase 20 anos atrás, fui apresentado às abelhas italianas Apis mellifera ligustica, por um extensionista rural que morou algum tempo em nossa casa. Ele saia fazer a visita técnica nos agricultores e eu ia na carona da moto para passear.

Em pouco tempo, aprendi a amar esses fantásticos insetos, que ao contrário do que pensam as pessoas, são extremamente dóceis e trabalhadores. Virei um praticante da apicultura.

Então porque ouvimos falar tanto em ataque de abelhas?

O principal fator de agressividade das abelhas apis mellifera são os genes da raça africana que foi introduzida no Brasil em 1957 para pesquisas científicas, mas acidentalmente fugiram alguns enxames e invadiram o país. Essa raça, por ser extremamente agressiva, mais ágil no vôo e mais produtiva, conseguiu se espalhar pelo mundo todo e matar em grande quantidade as raças mais mansas.

Ela é “pilhadora” por natureza – rouba o mel dos enxames mais fracos e pode até matar o enxame todo na batalha.

Para se ter uma idéia, traço um comparativo entre as abelhas africanas e as italianas:

Atitudes humanas e fatos. Reação das Abelhas Italianas-raça pura Reação das Abelhas Africanas-raça pura
Ao bater na colméia. Saem algumas sentinelas para ver o que esta acontecendo. Saem 100 guardas para atacar.
Ao ouvir um barulho ao longe, como uma enxada ou um trator. Saem algumas sentinelas para investigar. Saem dezenas de guardas para atacar o barulho.
Ao passar alguma coisa na frente da caixa, mesmo que a 20 metros de distância. Ficam observando. As africanas atacam.
Ao ouvir uma pessoa conversando a 30 metros da caixa. Não fazem nada. As africanas atacam.
Ao quase levar um tapa de um humano. Voam em volta, tentando ferroar, mas desistem se você esconder o rosto ou se esconder. Até não te ferroarem, elas não desistem. Voam em raios de 20 a 30 metros até te achar. Ou fuja ou mate a danada.
Quando você lança fumaça sobre a caixa para trabalhar com elas. Correm comer o mel para poder fugir. Metade vai comer o mel, a outra metade ataca o que esta se movendo.
Quando você tira mel delas. As vezes, você leva uma ferroada em um dia de trabalho. Você nem chega perto da caixa e já esta coberto de abelhas atacando. Levar 50 ferroadas numa caixa é ter sorte. Perseguem você por 1 km.
Quando você atira uma pedra no enxame pendurado num galho. Voam em um raio de 20 metros, atacam o que se mover e pousam de volta. Num raio de 200 metros, salve-se quem puder. Atacam qualquer coisa que vejam, sintam ou cheirem. Já vi até tentarem ferroar um pilar de concreto.

Em síntese, a africana é uma abelha que podemos comparar aos espartanos. Trabalham muito, mas nascem para guerrear.

Enxames puros são praticamente intratáveis. Elas dificilmente são encontradas puras, mas em 20 anos, tive que eliminar três enxames cujos genes deviam ser totalmente africanos. Eram verdadeiros “demônios alados”. A cada visita ao apiário, era uma ferroada lidando com as 20 caixas européias e quase 100 com a caixa africana. E o apiário todo entrava em combate porque elas atacavam todas caixas por minha causa.

As italianas e as outras raças de abelhas melíferas, são como pacíficas camponesas, que só lutam para se defender de um ataque direto a sua casa, mas o negócio delas mesmo é trabalhar na boa paz.

Um enxame de abelha de raça pura ou quase pura, tirando a africana, somente ataca se alguém jogar veneno sobre elas; se tentar bater nelas com objetos; se der pancadas ou fizer movimentos bruscos e repetidos perto delas; se o cheiro do suor ou perfume for muito forte; se bater com paus ou pedras no enxame ou na caixa e se, ainda assim, depois de irritá-las, você ficar se mexendo no campo visual delas.

Isto explica muitos ataques de enxames, que depois que algum garoto deu uma pedrada no bolo de abelhas, todo mundo joga a culpa nas coitadas.

Na maioria das vezes, basta literalmente ficar imóvel e enfiar a cara atrás de uma revista, um arbusto, uma coluna ou árvore; fechar as janelas ou apagar a luz e elas abandonam o ataque em minutos, mas claro, desde que você não esteja cheirando demais.

Já quando é uma passagem de enxame ou elas estão atacando (lembra da pedrada?), saia da frente e se esconda em um ambiente escuro. Não tente estapear 35.000 abelhas…

Um dos principais motivos que leva muitas pessoas a serem picadas é que, ao ver uma abelha voando já tentam lhe dar um tapa, o que desperta seu instinto de defesa e então ela ataca o agressor.

Para citar um exemplo bem simples, frequentemente em épocas de escassez de néctar (inverno ou nas secas), as abelhas procuram copos de refrigerantes para retirar o açúcar. Se você tentar lhe dar um tapa, provavelmente a abelha vai te atacar. Se você deixar ela beber, em um minuto, ela vai embora numa boa. Se você quiser afastá-la, faça-o gentilmente. Eu até as faço subir no dedo e as coloco numa gotinha de refrigerante sobre a mesa.

Então, estes são alguns dos motivos de alguns enxames serem extremamente agressivos e outros tão dóceis a ponto de se trabalhar com eles sem luva, máscara ou qualquer equipamento de segurança.

Não as provoque que elas serão extremamente dóceis.

Apenas fica a dica de segurança: quando não conhecer o enxame que vai lidar ou se tem algum medo delas, use proteção total. A medida que for se familiarizando com elas, pode tirar as luvas e depois de alguns anos, até a máscara.

Aprenda Como controlar o ataque de abelhas apis africanizadas.

Se você achou o assunto interessante, comente.

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4 comentários para “Ataque de abelhas melíferas - Porque elas atacam as pessoas?”

  1. pedro h.hoffmann disse:

    eu só acredito mas creio nele e na força do seu poder,muito bom seu comentário e orientação sobre ataque de abelhas africanizadas eu sempre digo apis não ataca se defende tenho mostrado há muitos colegas e principiantes como se abre uma colonia sem fumaça

  2. Miguescriba disse:

    Exato, Pedro.
    As abelhas são extremamente dóceis e só atacam em situações extremas.
    O que existe é muita desinformação e sensacionalismo.
    “Parece até que preferem noticiar uma morte por abelhas do que ensinar o povo a respeitá-las”.
    Bom Ano Novo.

  3. OSVALDO DE QUEIROZ disse:

    Como estou com um problema de presença de abelhas melíferas, não sei se africanizadas ou não?, em local não próprio, e portanto preciso me livrar delas, estou pesquisando como agir e assim encontrei seu artigo e
    quero fazer menção ao quadro comparativo de atitudes, apresentado, é bastante didático. Como já tenho histórico de alergia com picadas de abelhas, vendo as orentações do quadro, estou buscando auxilio junto ao Centro de Controle de Zoonozes da PMSP. para não correr riscos desnecessários.

  4. Miguescriba disse:

    Caro Osvaldo,
    sua atitude esta correta.
    Às vezes, até as mansas podem atacar instintivamente como defesa e se a pessoa é alérgica, corre o risco de morte.
    Embora seja difícil ocorrer com apenas uma ferroada, às vezes, ocorrem circunstâncias que tornam o socorro difícil, demorado, equivocado e aí a coisa complica.
    Sugiro que tentes encontrar um apicultor que tire o enxame, pois o controle de zoonoses pode não fazer esse serviço ou demorar demais. Sabes a história de que depois que acontece um acidente, aparecem dez para resolver. Antes demoram meses…
    Leias o post Como controlar o ataque de abelhas apis africanizadas.
    Ali tem dicas interessantes para amenizar o problema.
    Se ocorrer um ataque real mesmo (ataque generalizado) e és alérgico, salve seus entes queridos e tranque-se em um ambiente escuro e aplique inseticida nas frestas e janelas (por dentro).
    Mas, isso só ocorrerá se incomodares as abelhas de alguma forma. Saiba como em Fatores externos que iniciam um ataque de abelhas africanizadas.
    Um abraço.

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