Como abracei as abelhas em um acidente no apiário
Lidava com abelhas africanizadas há vários anos em uma propriedade rural e o apiário ficava em um capão no potreiro bem pedregoso e íngreme, com uma infinidade de pedras roliças soltas sobre a grama.
Como o agricultor não utilizava aquele pedaço do potreiro pelo excesso de pedras, autorizou-me a montar o apiário lá. Pensei em tirar as pedras para ficar mais seguro, mas eram tantas que desisti da idéia.
Foram vários escorregões e tropeços durante o período em que mantive as abelhas lá. Toda vez, eu tropeçava em uma pedra solta e quase caia. Na semana seguinte, a pedra mexida na semana anterior ficava no caminho e eu pisava sobre ela e quase rolava no chão. Só que era tanta pedra que eu as empurrava de um lado para outro, abrindo apenas um trilho para passagem.
Certa vez, já próximo da colheita de mel, os enxames estão enormes e trabalham incessantemente para colher o pólen e néctar. Estou dando a revisada final nas caixas, para na semana seguinte colher uns 300 kg de mel. Olha uma, olha outra e para chegar a quarta caixa, tenho que descer um desnível de meio metro.
Quando dou o passo para descer, a pedra que estava sob a minha bota, se solta da grama e eu caio para frente. A única coisa na minha frente é a caixa de abelhas e caio abraçado, derrubando-a no chão e rolando sobre ela.
Gente!!! Um ninho com duas melgueiras. Enxame enorme de umas 60 mil abelhas. As abelhas eram mansas, mas na hora, foi um inferno. Enquanto ainda me ajuntava do chão, meio atordoado e todo dolorido, fui ferroado por umas 30 abelhas. Em pouco tempo estava coberto de abelhas. Mal conseguia enxergar tirando as abelhas do visor da máscara com a mão.
As ferroadas se sucediam em todas as partes do corpo. Por sorte o macacão e a máscara não rasgaram. Levantei e ainda tive a presença de espírito de ajuntar o fumigador de fumaça e sair correndo. Enquanto abria o portão do apiário para sair, as danadas me alfinetavam as dezenas.
Corri uns 100 metros no potreiro limpo, todo estropiado do tombo e consegui chegar a um capão de mato. O gado que as abelhas encontraram no caminho, saiu em disparada pelo morro fugindo das ferroadas. Fazia uma fumaceira no meio das árvores, quase sufocando e nada delas voltarem para o apiário.
Embora estivesse longe e no meio do mato, as abelhas africanizadas que tinha levado no macacão e na máscara, continuavam a me ferroar. Então me bati de todo jeito e corri mais uns 100 metros até um paiol onde me escondi cerca de uma hora.
Não sei o que doía mais. Se as ferroadas ou o tombo nas pedras. Fiquei meio assustado ao tirar o macacão, pois parecia um cara com catapora gigante. Mas não tive nenhuma reação alérgica.
Fui à casa do agricultor e o cara me deu um gole de cachaça gelada para me acalmar e pasmem, me despejou cachaça gelada pelo corpo, para aliviar o “calor” das ferroadas. Isso aliviou a dor e meio que me anestesiou pelo cheiro de álcool . Também as abelhas depois não me incomodaram muito, tendo descoberto alguns anos mais tarde que os “pinguços” podem tirar mel sem nenhuma proteção, porque as abelhas parecem ficar anestesiadas pelo cheiro do suor de pinga.
Mais calmo, fui espiar de longe como as coisas estavam e ao ver que a caixa estava apenas espalhada pelo chão e não tinha se quebrado, esperei escurecer algumas horas e voltei ao apiário para ajuntar a caixa e remontá-la. Coloquei duas calças e duas blusas sob o macacão, preparei dois fumigadores de fumaça e encarei a batalha.
Levei mais umas 10 ferroadas, mas como estava meio anestesiado nem dei muita bola.
Quando cheguei em casa, minha mãe ficou apavorada e queria de toda maneira me levar ao hospital, mas eu não fui porque já tinha sido ferroado há mais de cinco horas e não havia nenhum risco de algo me acontecer. Depois de acalmada, contou 117 vergões de ferroadas no meu corpo.
Pena que na época, não tenhamos tirado uma foto, pois seria uma recordação muito legal. E dois dias depois, apenas tinha as 117 pontinhas de pús, onde havia sido ferroado.
Na semana seguinte voltei normalmente ao apiário e colhi 250 kg de mel. Por precaução, nem mexi naquele enxame para não irritá-las novamente.
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