Eram lá pelas três da tarde e eu, em pleno calorão de 35° estava revisando os enxames de abelhas para a colheita de mel, nos próximos dias.
Tudo tranqüilo nessa época de novembro, em que como os enxames estão cheios de mel e trabalhando ativamente na colheita de pólen e néctar, as abelhas ficam bem mansas.
Revisara oito colméias de abelhas africanizadas e faltavam apenas 02 daquele apiário.
Entre a menor, que aparentemente não tiraria mel algum, por ser muito pequena – umas 35 mil abelhas – e a gigante, de umas 80 mil abelhas africanizadas, preferi revisar a pequena colméia, já que não daria muito trabalho.
Deixei a maior para o final, pois geralmente grandes enxames dão um grande movimento de abelhas e chegam a assustar pelo zumbido que fazem, quando estão estressadas pelo manuseio dos caixilhos repletos de mel.
Mal abro a pequena caixa e vem a surpresa!
Embora tenha adotado todas as providências necessárias – fumaça, intervalo para acalmar, nenhum barulho, etc. – sou surpreendido por um ataque maciço de abelhas enfurecidas. Em um minuto, estava preto de abelhas nos braços, nas luvas, no véu da máscara, que quase me tampavam a visão.
Nem entendi direito, mas apicultor que é galo, não se amedronta com agressividade injustificada.
Sempre existe um motivo para tal agressividade e devemos agir para sanar o problema.
Depois da surpresa inicial, retomei a calma peculiar no trato das abelhas melíferas. Às vezes, você se assusta porque esta tão acostumado com a mansidão, que estranha até mesmo ter sido ferroado.
Passados alguns minutos, ao retirar alguns caixilhos descubro inúmeras realeiras prontas para nascer, e embora tenha verificado exaustivamente, não identifiquei postura da rainha e tampouco achei a “dita cuja”. Estava explicada a agressividade!
A rainha devia ter morrido há alguns dias e elas estavam desesperadas para proteger as novas “futuras candidatas” que estavam prestes a eclodir das células reais. Nessa época, o stress das abelhas é altíssimo, transformando qualquer enxame manso em verdadeiras “diabinhas de asas”.
Enquanto fazia a revisão, ouvi várias pancadas secas e não sabia o que era. Terminada a revisão daquela colméia, pretendia revisar o último enxame, mas ao dar uma olhada panorâmica pelo apiário, chamou-me a atenção diversos bois e vacas pinoteando em volta do apiário, inclusive alguns estavam amarrados numa estrebaria a uns 200 metros do apiário. Era dali que vinham as batidas.
Na confusão criada pela abertura do pequeno enxame, as abelhas alçaram vôos a longa distância e ao encontrarem o gado “suado e cheirando”, foi um “Deus nos acuda!” Acharam até galinhas e marrecos para atacar. As aves bateram em pernas para o capoeiral e se livraram das agressoras.
Os bois que estavam soltos, saíram pinoteando pelo campo, mas umas quatro vacas que estavam amarradas no estábulo, estavam sendo duramente atacadas. Não teriam salvação se eu não socorresse as coitadas.
Larguei tudo no apiário e desviando de algumas reses que disparavam e pinoteavam pelo pequeno potreiro, cheguei na estrebaria e a muito custo, consegui soltar as vacas que corcoveavam, coiceavam e chifravam as paredes do estábulo, tentando fugir das picadas das abelhas.
O mais grave do ataque de abelhas africanizadas (com genes de abelhas africanas) ao animais é que elas procuram a área dos olhos e do focinho para ferroar. Parecem saber que ali é mais dolorido, mas na verdade é um instinto ancestral. Os olhos piscam e refletem as nuances de luz e o focinho exala um cheiro desagradável – ambos irritam profundamente as abelhas. Aí esta o motivo da concentração de ataque nesses locais.
Soltas as vacas, o ataque continuava aos outros animais, porque o espaço do potreiro era pequeno e com poucos matagais onde os animais pudessem se esconder. Eles corriam em um longo círculo, mas acabavam passando perto do apiário novamente e novas abelhas atacavam os coitados.
Tomei uma medida drástica que me fez perder produção, mas garantiu a salvação dos animais. Fechei todas as colméias com serragem nos alvados, perturbando a colheita, mas reduzindo a saída de novas atacantes.
Aí, fumaciei o apiário todo com o fumigador de fumaça, gastando umas três cargas de serragem, que se alguém enxergasse de longe pensaria que era um incêndio. Com a fumaça excessiva, não restou outra opção ao enxame alucinado retornar à sua colméia para salvar alguma coisa do “suposto incêndio”.
Foram cerca de 2 horas de uma correria incessante, até que a situação acalmou. Restaram apenas umas dez cabeças de gado, com dezenas de ferrões nos olhos e focinhos, que chegou a dar pena dos bichos. E não havia o que fazer para ajudá-los.
Depois dessa, aprendi a lição. Ao ser duramente atacado por um enxame de abelhas – pequeno ou grande - desisto da revisão na hora e só retorno bem no fim da tarde, porque assim, embora ainda possa ocorrer o ataque das abelhas, logo escurece e o transtorno é menor. No dia seguinte, amanhecem “mansinhas da silva.”