Arquivo da Categoria ‘Opinião’

Porque às vezes dá vontade de “Não ver nada”

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Definitivamente, agora entendo porque quando acontece algum crime, por banal que seja, ninguém quer ser testemunha.

Três horas da manhã. Estou blogando e ouço um barulho. Pareceu um estilhaçar de vidro. Intrigado, vou à janela do meu apartamento e olho para baixo, na garagem do prédio de 40 aptos.

Um cidadão de boné escuro, calça jeans clara e jaqueta escura, me encara três andares abaixo. Ele parece ter uma mochila nas costas. Fica aquela sensação de angústia. O que fazer? Tirar a cara da janela? Gritar, ligar para a polícia?

Não precisei decidir. O cara deu “em pernas”. Correu mais rápido do que eu consegui pensar. Quando passou num sensor da garagem, o alarme dispara.

Facilitou minha decisão. Corri ao telefone e liguei para a polícia. Tive que repetir três vezes o ocorrido, endereço, nome, etc.

Depois voltei na janela e gritei: “Ladrão! Pega-ladrão!” umas 10 vezes. Nenhuma luz ou barulho de vizinhos. Todo mundo dormindo ou escondido.

Em 5 minutos, a patrulha toca meu interfone. Nem acreditei na rapizes, mas fui atender. Pediram para descer e lá fui eu. Chega o caro da empresa de vigilância monitorada por causa do disparo no alarme do prédio.

Explico tudo de novo. Descrevo o ladrão, passo informações. Tenho que me identificar. Pedem para abrir a garagem. Mostrar qual carro fora roubado.

Pra variar, o Policial Militar meio que espera eu entrar na garagem do prédio, na frente dele. Pensei comigo: - “Ele esta de colete e eu que vou de escudo”. Isso já tinha me acontecido uma vez, a cerca de 15 anos.

Ele vai ver o carro que indico e esta arrombado mesmo. O ladrão tentou forçar a porta e o vidro estourou. O policial acha os documentos do carro, caídos no chão. Roubaram o som do carro.

Mais de 30 minutos e nenhuma alma acordou no prédio. O policial pede que eu interfone ao apto 301 que é o proprietário do veículo, segundo os documentos. O cara estava usando um box vago no dia.

Interfono umas 10 vezes, e nada. Subo ao apto e toco a campainha umas 15 vezes. Bato na porta, berro, e nada. Interfono no apartamento do síndico. Nem em sonho eles atende.

Chega outra patrulha da polícia e vai girar para tentar achar o marginal.

Sem conseguir achar o proprietário, os policiais pedem que eu devolva os documentos dele e lhe oriente a registrar a ocorrência no dia seguinte. Subo no 301 e toco novamente a campainha. Ninguém atende.

Nisso, a vizinha separada do 302 pergunta do outro lado da porta: - “O que aconteceu?” Explico que arrombaram o carro do 301 e ela diz apavorada: - “Mas o carro do 301 é o meu.” E começa a chorar. Chama o filho pequeno, que também esta assustado.

Tento tranquilizá-la e lhe digo: - “Peça ao seu Nelson para descer falar com a polícia.”

Ela diz: - “Nelson, que Nelson? Eu sou separada e o carro esta no meu nome”.

Leio para ela o nome e a placa do carro que foi arrombado. Quando estou lendo, vejo que o apto é 301, mas o endereço é de outra rua. O guarda me dera a informação errada. Não era o carro do apto 301.

Foram mais uns 05 minutos explicando através da porta, que tinha sido um engano.

Já tô ficando de saco cheio dessa confusão.

Vou para o meu apartamento. Não dá cinco minutos e toca o interfone. A polícia não tinha o meu RG para colocar na ocorrência. Tenho que descer de novo com a Carteira de Motorista. Olha o saco!

Vou dormir estressado – e não tinha culpa de nada.

As 10 da manhã, vou levar o documento recuperado para o síndico descobrir de quem era o carro. Fico sabendo que mais dois haviam sido arrombados. Como não estourou o vidro e nem tinham alarme, os PM´s não tinham visto. Passo quase meia hora, sendo interrogado pelo síndico. Quase digo que “não fui eu que arrombei. Eu só ouvi.”

Meio dia, e começa a procissão. Vem a primeira vítima “ouvir explicações”, descrição do marginal e outros detalhes que deveria estar pedindo para a polícia.

Outros minutos, chega mais um proprietário, querendo saber “porque eu não gritei, porque eu não ouvi o arrombamento do carro dele, e só no terceiro?”.

Já estava explodindo de raiva. Quase disse que não fico na janela espiando ou escutando o que os vizinhos ou algum marginal possa vir a fazer de madrugada.

Outros 30 minutos de conversa improdutiva, como se saber a cor da jaqueta do ladrão umas 10 vezes, fosse devolver os aparelhos de som dos carros.

O saco esta implodind…

Me livro dos caras, fecho a porta e cinco minutos depois, a terceira vítima aparece.

Não é diferente dos outros. Pergunta como “só ouvi quando estourou o vidro”. “Porque eu não chamei a polícia?” – Animal! Tinha acabado de contar pela trigésima vez a história.

Juro! Nunca mais vou “vêr” nada. Berrei umas 30 vezes de madrugada. Perdi 01 hora de trabalho com a polícia. Quatro policiais andaram e falaram na garagem por mais de 40 minutos. Mais 2 horas perdidas com os vizinhos. Fiquei extremamente irritado pela estupidez das vítimas. Dá próxima vez, vou assistir o arrombamento e voltar para o blog.

Haja paciência!

Se você achou o conteúdo deste post relevante, comente.

Roubo de R$ 0,80 no Brasil dá cadeia só para pobres

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A Justiça Paulista negou o hábeas corpus do lavador de carros, pai de cinco filhos, preso em 11/09/2008 sob a acusação de roubar R$ 0,80 de um rapaz.

Segundo a vítima, o acusado supostamente teria mantido a mão no bolso simulando estar armado, o que o intimidou e fez entregar os R$ 0,80 que possuía.

Tudo bem, crime é crime. Mas isso é uma demostração explícita de que no Brasil, só filhote de lambari fica na cadeia – 30 dias por R$ 0,80 e vão ser mais ainda. Lembram do caso da mulher desempregada que roubou em 12/2005 um pote de margarina de R$ 3,10 para alimentar o filho e ficou na prisão 128 dias? E da outra que roubou um shampo de R$ 3,00 e ficou seis meses presa?

São casos de utilização discriminatória da legislação penal no Brasil. Aos pobres, todo rigor da lei.

Aos ricos, bem… Responda rápido: Onde estão milhares de casos de especuladores, políticos, empresários, juízes e até desembargadores acusados de desvios ou favorecimentos de “trocadinhos” tipo R$ 1 milhão, R$ 10 milhões ou até R$ 1 bilhão?

Eles não conseguem hábeas corpus antes mesmo de ser presos e algemados? Ah, desculpe, esqueci que agora não se pode mais algemar para não constrangê-los…

Você não leu errado o outro parágrafo, não. O empresário desviou e deu prejuízo de R$ 1 bilhão de reais no Governo e no mercado, e o cara tá solto, apareceu há um mês atrás em revista de circulação nacional, traje italiano finíssimo, esnobando no seu carro importado e mansão, mostrando que o R$ 1 bilhão jamais será devolvido.

Talvez se ele roubar algumas moedas ou um pote de margarina, ele até venha a ficar preso alguns meses…

Já dizia Cazuza: “Que país é esse?!?!”

Se você achou este texto adequado ou não, expresse seu comentário..

A velha espingarda e o desarmamento!

sábado, 27 de setembro de 2008

Pois é! Passamos por alguns sufocos nos últimos dias. Eu e meu irmão, andando com uma velha espingarda no carro. Resolvemos entregá-la na campanha do desarmamento. Nosso pai deu o último tiro num gambá (raposa aqui no Sul) a cerca de 25 anos atrás - ele só a usava para isso. Depois guardou no forro da casa para não ser roubada e nunca mais usou. Por ser idoso e meio teimoso, não queria “entregar a arma para o governo” de jeito nenhum.

Por esses dias, tivemos que desmanchar a casa antiga do nosso pai em outra cidade porque estava velha e desabando e não teve outro jeito. Optamos por entregar a arma na campanha do desarmamento. Junto com a espingarda, estava uma caixa de munição, repleta de cartuchos mofados e corroídos pelo tempo.

Já havíamos pego uma guia na Polícia Federal para transportar a espingarda e a munição para a cidade da residência do meu irmão, e depois outra guia para transportar para a Polícia Federal de Passo Fundo, que receberia a arma.

Só que nesse final de semana, meu irmão pernoitou na nova residência do pai, tendo que guardar o carro num posto de gasolina e como tinha medo que a espingarda pudesse ser roubada, colocamos no meu carro.

Quando estava saindo, lembrei que se eu levasse a espingarda no meu carro e fosse parado numa blitz, a guia estava autorizando o meu irmão e não a mim. Eu obviamente seria preso.

Tivemos que fazer um verdadeiro planejamento de guerra, para que pudessemos levar a espingarda para o meu apartamento com dois carros, deixamos ela guardada lá e voltarmos ao posto de gasolina para ele guardar o carro.

No dia seguinte, tivemos que fazer toda a operação inversa para que não tívessemos problemas. Feita toda a troca, meu irmão retornou à sua cidade com a arma e a guia.

No dia seguinte, ligou-me informando que tudo havia saído bem, conseguindo entregar a arma sem problemas.

Não pudemos deixar de comentar o quanto tínhamos nos sentido criminosos transportando uma arma, mesmo cumprindo a lei e nos desfazendo de algo que pode ser mais perigoso se estiver em mãos erradas ou for mal usado, do que entregue para destruição na Polícia Federal.
Lembramos das milhares, talvez milhões de armas que estão nas mãos de criminosos, dos quais ninguém faz “campanha de desarmamento” nos bairros, nas favelas e até nos presídios, que as vezes tem mais armas do que os agentes penitenciários.