Porque às vezes dá vontade de “Não ver nada”

Definitivamente, agora entendo porque quando acontece algum crime, por banal que seja, ninguém quer ser testemunha.

Três horas da manhã. Estou blogando e ouço um barulho. Pareceu um estilhaçar de vidro. Intrigado, vou à janela do meu apartamento e olho para baixo, na garagem do prédio de 40 aptos.

Um cidadão de boné escuro, calça jeans clara e jaqueta escura, me encara três andares abaixo. Ele parece ter uma mochila nas costas. Fica aquela sensação de angústia. O que fazer? Tirar a cara da janela? Gritar, ligar para a polícia?

Não precisei decidir. O cara deu “em pernas”. Correu mais rápido do que eu consegui pensar. Quando passou num sensor da garagem, o alarme dispara.

Facilitou minha decisão. Corri ao telefone e liguei para a polícia. Tive que repetir três vezes o ocorrido, endereço, nome, etc.

Depois voltei na janela e gritei: “Ladrão! Pega-ladrão!” umas 10 vezes. Nenhuma luz ou barulho de vizinhos. Todo mundo dormindo ou escondido.

Em 5 minutos, a patrulha toca meu interfone. Nem acreditei na rapizes, mas fui atender. Pediram para descer e lá fui eu. Chega o caro da empresa de vigilância monitorada por causa do disparo no alarme do prédio.

Explico tudo de novo. Descrevo o ladrão, passo informações. Tenho que me identificar. Pedem para abrir a garagem. Mostrar qual carro fora roubado.

Pra variar, o Policial Militar meio que espera eu entrar na garagem do prédio, na frente dele. Pensei comigo: - “Ele esta de colete e eu que vou de escudo”. Isso já tinha me acontecido uma vez, a cerca de 15 anos.

Ele vai ver o carro que indico e esta arrombado mesmo. O ladrão tentou forçar a porta e o vidro estourou. O policial acha os documentos do carro, caídos no chão. Roubaram o som do carro.

Mais de 30 minutos e nenhuma alma acordou no prédio. O policial pede que eu interfone ao apto 301 que é o proprietário do veículo, segundo os documentos. O cara estava usando um box vago no dia.

Interfono umas 10 vezes, e nada. Subo ao apto e toco a campainha umas 15 vezes. Bato na porta, berro, e nada. Interfono no apartamento do síndico. Nem em sonho eles atende.

Chega outra patrulha da polícia e vai girar para tentar achar o marginal.

Sem conseguir achar o proprietário, os policiais pedem que eu devolva os documentos dele e lhe oriente a registrar a ocorrência no dia seguinte. Subo no 301 e toco novamente a campainha. Ninguém atende.

Nisso, a vizinha separada do 302 pergunta do outro lado da porta: - “O que aconteceu?” Explico que arrombaram o carro do 301 e ela diz apavorada: - “Mas o carro do 301 é o meu.” E começa a chorar. Chama o filho pequeno, que também esta assustado.

Tento tranquilizá-la e lhe digo: - “Peça ao seu Nelson para descer falar com a polícia.”

Ela diz: - “Nelson, que Nelson? Eu sou separada e o carro esta no meu nome”.

Leio para ela o nome e a placa do carro que foi arrombado. Quando estou lendo, vejo que o apto é 301, mas o endereço é de outra rua. O guarda me dera a informação errada. Não era o carro do apto 301.

Foram mais uns 05 minutos explicando através da porta, que tinha sido um engano.

Já tô ficando de saco cheio dessa confusão.

Vou para o meu apartamento. Não dá cinco minutos e toca o interfone. A polícia não tinha o meu RG para colocar na ocorrência. Tenho que descer de novo com a Carteira de Motorista. Olha o saco!

Vou dormir estressado – e não tinha culpa de nada.

As 10 da manhã, vou levar o documento recuperado para o síndico descobrir de quem era o carro. Fico sabendo que mais dois haviam sido arrombados. Como não estourou o vidro e nem tinham alarme, os PM´s não tinham visto. Passo quase meia hora, sendo interrogado pelo síndico. Quase digo que “não fui eu que arrombei. Eu só ouvi.”

Meio dia, e começa a procissão. Vem a primeira vítima “ouvir explicações”, descrição do marginal e outros detalhes que deveria estar pedindo para a polícia.

Outros minutos, chega mais um proprietário, querendo saber “porque eu não gritei, porque eu não ouvi o arrombamento do carro dele, e só no terceiro?”.

Já estava explodindo de raiva. Quase disse que não fico na janela espiando ou escutando o que os vizinhos ou algum marginal possa vir a fazer de madrugada.

Outros 30 minutos de conversa improdutiva, como se saber a cor da jaqueta do ladrão umas 10 vezes, fosse devolver os aparelhos de som dos carros.

O saco esta implodind…

Me livro dos caras, fecho a porta e cinco minutos depois, a terceira vítima aparece.

Não é diferente dos outros. Pergunta como “só ouvi quando estourou o vidro”. “Porque eu não chamei a polícia?” – Animal! Tinha acabado de contar pela trigésima vez a história.

Juro! Nunca mais vou “vêr” nada. Berrei umas 30 vezes de madrugada. Perdi 01 hora de trabalho com a polícia. Quatro policiais andaram e falaram na garagem por mais de 40 minutos. Mais 2 horas perdidas com os vizinhos. Fiquei extremamente irritado pela estupidez das vítimas. Dá próxima vez, vou assistir o arrombamento e voltar para o blog.

Haja paciência!

Se você achou o conteúdo deste post relevante, comente.

Post relacionados:

Tags: ,

Deixe um comentário