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O véu sumiu na revisão das abelhas africanizadas

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Logo no começo das minhas atividades apícolas em 1984, os equipamentos ainda estavam sendo desenvolvidos ou adaptados à realidade brasileira, sendo alguns muito precários.

Na maioria das vezes, víamos figuras e fotos de livros e acabávamos fabricando o equipamento, porque não havia no comércio para comprar.

Nessa função, como era difícil conseguir uma máscara de apicultor para lidar com as abelhas africanizadas e as que existiam eram caras demais, resolvemos fazer uma. Comprei o tecido, chapéu de palha e como não tínhamos experiência, seguimos as passagens de livros que diziam usar-se um véu preto, que achamos parecido com o de filó, para facilitar a visão do apicultor.

Com a destreza da minha mãe, exímia costureira, fabricamos a dita máscara para trabalhar com as abelhas. Colocamos uma tira de 10 cm x 20 cm de filó preto na frente do rosto e o resto de tecido de algodão grosso para impedir as ferroadas das abelhas.

Tudo funcionava muito bem quanto a visibilidade, segurança e ventilação que propiciava. Passados vários meses, não havia tido qualquer problema com o equipamento “fabricado por nós.”

Só que a gente só descobre os defeitos das coisas quando se passa por um aperto ou emergência, condição em que tudo é posto à prova nas suas condições limites.

Certo dia, lidando com uma colméia de africanizadas cujo ataque das abelhas era extremamente feroz, aumentei o uso do fumigador para controlar as abelhas na base de rolos de fumaça. Embora estivessem envolvidas nas atividades de coleta de pólen, néctar e polinizando as flores, elas me cobriam inteiro nos braços, rosto e em volta de toda a cabeça sobre a máscara . Passado algum tempo, acabou a carga de serragem do fumigador e eu teria que abastecê-lo de serragem para continuar trabalhando.

Deixei a caixa aberta, pois retornaria alguns segundos depois e me afastei alguns metros para reduzir a agressividade das abelhas. Abri o fumigador, me abaixei sobre a boca do fumigador para ver como estavam as brasas e para avivar o fogo, dei uma apertadinha no fole do mesmo. Foi um caos!

Subiu uma lufada de fagulhas incandescentes de serragem, não muito grandes, mas que literalmente pulverizaram o véu de filó da máscara, deixando-me completamente desprotegido no rosto. Sorte que estava afastado do ataque das abelhas e de cabeça baixa.

Em segundos, algumas abelhas entraram pelo grande rombo e atacaram a minha cara. Agarrei de uma pegada só o fumigador e o saco de serragem e saí em desabalada corrida, morro abaixo, tapeando as abelhas da cara e do macacão. Tomei umas dez ferroadas no rosto, enquanto entrava num capoeiral para me esconder.

Passados uns cinco minutos, carreguei o fumigador e me enfiei numa nuvem de fumaça que afugentou a maioria das abelhas que permanecia grudada no macacão. Bati a máscara com firmeza para derrubar as abelhas ainda agarradas ao chapéu e ao macacão e saí em nova corrida até chegar ao carro, onde entrei e arranquei para ir mais longe.

Parei cerca de 1 km longe e aproveitei que quase não tinha mais abelhas para tirar a máscara e com a ajuda de um canivete, remover os ferrões na pálpebra direita, no nariz, no pescoço e nas bocechas. Do filó, não restara mais que 01 centímetro na abertura da máscara.

Nessas alturas estava parecendo o “Bozo”, com a cara duas vezes maior que o normal. Depois de um tempo, a dor, embora fosse muito forte, era menor que a vontade de rir do ocorrido.

Ainda bem que já estava relativamente habituado ao veneno das abelhas africanizadas.

É como você estar totalmente protegido atrás de um vidro e no segundo seguinte, o vidro desmaterializar-se no ar. Para descrever o que senti na hora, só lembro de uma expressão que descreve o que senti na hora. - “Danou-se”. Como diria o boi Otis no filme O segredo do animais.

Tive que reformar a máscara de noite e voltar no dia seguinte de manhã para fechar a caixa, e o enxame estava ainda mais irritado que no dia anterior.

Descobri depois, que o tal véu preto que aparecia nas fotos, era de tela plástica, tipo as de mosquito ou tela de sombrite, que é 100 vezes mais resistente ao fogo.

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A colméia das abelhas apis melífera

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Um enxame de abelhas apis melífera vive em um ambiente chamado de colméia. Ela pode estar instalada em qualquer espaço físico de qualquer formato e sob qualquer condição atmosférica ou geográfica.
Na natureza é mais comum encontrar colméias em troncos ocos de árvores, mas também encontramos colônias de abelhas em buracos de tatu, em lajes de pedras ou em casos mais raros, ao relento, em forquilhas de árvores ou sob galhos frondosos.
Na cidade, é comum instalar-se em forros de paredes de madeira e na caixa do telhado das casas.
Na moderna apicultura, utiliza-se caixas de madeira com espaço interno cúbico, variando em algumas medidas quadradas ou retangulares, mas todas com o mesmo princípio.
A colônia de abelhas africanizadas é constituída de apenas 01 rainha, uns 2 ou 3 mil zangões (machos) e sempre milhares de operárias – de 20 até 80 mil abelhas. Conforme o clima for mais rígido, esse número de zangões e operárias reduz sensivelmente, chegando uma colméia ao extremo de expulsarem todos os machos da colméia, vindo todos a morrer de fome e frio.
A rainha é fecundada apenas uma vez na vida, por um ou mais zangões em um vôo nupcial em que a mesma voa vertiginosamente para o alto, sendo perseguida pelos zangões atraídos pelo cheiro do feromônio da rainha, em um raio de até 2 km. Os mais fortes e rápidos conseguem alcançar a rainha e copular com ela. Ao copularem, perdem os seus órgãos sexuais e morrem.
Fecundada a rainha, a mesma retorna ao local onde o enxame esta alojado e inicia a postura de algumas centenas a até 3.000 ovos por dia, nas épocas mais fartas de flora apícola.
À medida em que vai se aproximando a época da primavera e verão, ápice das florações, a rainha vai instintivamente aumentando sua postura diária, fazendo com que o enxame progressivamente tenha mais operárias. Por questão de instinto, a rainha pode nas épocas mais fartas de mel, por ovos de zangões para permitir a perpetuação da espécie. Nas épocas de inverno e escassez de flores, a postura de zangões é praticamente inexistente.
Com o aumento do alimento e o crescimento do volume de abelhas trabalhadoras, o enxame vai progressivamente ampliando instalações, arrecadando mais alimentos e assim, estimulando a postura da rainha, que coloca mais ovos por dia. Gera-se assim, um círculo de estímulo ao crescimento contínuo do enxame.
Passados 21 dias da postura, nascem as abelhas operárias que iniciam uma jornada imediata e contínua de trabalho até morrer, geralmente extenuada pelo trabalho no campo. Sua primeira tarefa é limpar a célula – alvéolo – onde nasceu e a partir daí, desenvolve inúmeras tarefas de babá, alimentadora, faxineira, sentinela, coletora de água, néctar ou pólen. Essa jornada de trabalho no verão leva uma abelha à morte em cerca de 30 dias ou menos, dependendo do volume de trabalho no campo. Uma operária em plena época de floração, pode fazer 50 km em idas e vindas do campo de flor até sua colméia em apenas um dia. No inverno, as abelhas operárias chegam há durar seis meses, porque não saem de casa por causa do frio, chuva e falta de flores.
Logo que saí a campo, a abelha tem uma determinada tarefa a cumprir – buscar água, buscar néctar ou pólen. Todas são trabalhadoras e exploradoras ao mesmo tempo. Quando saem para coletar algo e descobrem uma fonte de néctar ou pólen no caminho, ao retornar com a água, indicam a localização geográfica do alimento, com precisão de centímetros.
Elas fazem uma coreografia, chamada de “dança das abelhas”, cujos movimentos são sincronizados com a posição do sol e a posição da fonte de alimento. Indicam a posição geográfica, o tipo e a quantidade de alimento encontrada. Dessa forma, dezenas de outras operárias irão até o local coletar o alimento indicado pela abelha dançarina, seja água, pólen ou néctar.
Isso explica porque ao deixarmos um pote de mel aberto no inverno, surge uma abelha e minutos depois, quatro ou cinco e meia hora depois serão 500 abelhas.
Da mesma forma, ao serem incomodadas, as abelhas executam a mesma dança alertando a posição geográfica do inimigo, aliada a secreção de um feromônio indicador de perigo, que dispara um ataque de abelhas maciço e coordenado contra o invasor.
O agricultor no campo conhece bem essa situação, já que ao bater a enxada, atraí algumas abelhas ao local, irritadas com a vibração da batida da enxada. Se tentar espantar as abelhas com tapas, o que é bem comum, algumas voltam para a colméia e disparam o ataque das abelhas sobre o coitado. Só lhe resta correr e cancelar o trabalho naquele dia.
No processo de coleta de néctar ou pólen, as abelhas fazem voluntariamente a polinização das flores gerando a frutificação das plantas visitadas, não importa se cereal, árvore, capim ou erva-daninha. Como possuem um instinto ancestral de visitarem a cada viagem, sempre flores da mesma espécie, as abelhas ao pousar sobre uma flor acabam esbarrando no pólen e no órgão reprodutor da flor e ficam “sujas” desse pólen em suas patas cheias de pelinhos.
Ao pousar na próxima flor da mesma espécie, novamente esbarram no pólen e no órgão reprodutor da flor, fecundando-o com o pólen da flor anterior e assim sucessivamente, gerando a fecundação e a produção de sementes ou frutos.
Esse processo chega a incríveis 10 mil flores por dia visitadas num único dia por uma abelha.

Como abracei as abelhas em um acidente no apiário

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Lidava com abelhas africanizadas há vários anos em uma propriedade rural e o apiário ficava em um capão no potreiro bem pedregoso e íngreme, com uma infinidade de pedras roliças soltas sobre a grama.

Como o agricultor não utilizava aquele pedaço do potreiro pelo excesso de pedras, autorizou-me a montar o apiário lá. Pensei em tirar as pedras para ficar mais seguro, mas eram tantas que desisti da idéia.

Foram vários escorregões e tropeços durante o período em que mantive as abelhas lá. Toda vez, eu tropeçava em uma pedra solta e quase caia. Na semana seguinte, a pedra mexida na semana anterior ficava no caminho e eu pisava sobre ela e quase rolava no chão. Só que era tanta pedra que eu as empurrava de um lado para outro, abrindo apenas um trilho para passagem.

Certa vez, já próximo da colheita de mel, os enxames estão enormes e trabalham incessantemente para colher o pólen e néctar. Estou dando a revisada final nas caixas, para na semana seguinte colher uns 300 kg de mel. Olha uma, olha outra e para chegar a quarta caixa, tenho que descer um desnível de meio metro.

Quando dou o passo para descer, a pedra que estava sob a minha bota, se solta da grama e eu caio para frente. A única coisa na minha frente é a caixa de abelhas e caio abraçado, derrubando-a no chão e rolando sobre ela.

Gente!!! Um ninho com duas melgueiras. Enxame enorme de umas 60 mil abelhas. As abelhas eram mansas, mas na hora, foi um inferno. Enquanto ainda me ajuntava do chão, meio atordoado e todo dolorido, fui ferroado por umas 30 abelhas. Em pouco tempo estava coberto de abelhas. Mal conseguia enxergar tirando as abelhas do visor da máscara com a mão.

As ferroadas se sucediam em todas as partes do corpo. Por sorte o macacão e a máscara não rasgaram. Levantei e ainda tive a presença de espírito de ajuntar o fumigador de fumaça e sair correndo. Enquanto abria o portão do apiário para sair, as danadas me alfinetavam as dezenas.

Corri uns 100 metros no potreiro limpo, todo estropiado do tombo e consegui chegar a um capão de mato. O gado que as abelhas encontraram no caminho, saiu em disparada pelo morro fugindo das ferroadas. Fazia uma fumaceira no meio das árvores, quase sufocando e nada delas voltarem para o apiário.

Embora estivesse longe e no meio do mato, as abelhas africanizadas que tinha levado no macacão e na máscara, continuavam a me ferroar. Então me bati de todo jeito e corri mais uns 100 metros até um paiol onde me escondi cerca de uma hora.

Não sei o que doía mais. Se as ferroadas ou o tombo nas pedras. Fiquei meio assustado ao tirar o macacão, pois parecia um cara com catapora gigante. Mas não tive nenhuma reação alérgica.

Fui à casa do agricultor e o cara me deu um gole de cachaça gelada para me acalmar e pasmem, me despejou cachaça gelada pelo corpo, para aliviar o “calor” das ferroadas. Isso aliviou a dor e meio que me anestesiou pelo cheiro de álcool . Também as abelhas depois não me incomodaram muito, tendo descoberto alguns anos mais tarde que os “pinguços” podem tirar mel sem nenhuma proteção, porque as abelhas parecem ficar anestesiadas pelo cheiro do suor de pinga.

Mais calmo, fui espiar de longe como as coisas estavam e ao ver que a caixa estava apenas espalhada pelo chão e não tinha se quebrado, esperei escurecer algumas horas e voltei ao apiário para ajuntar a caixa e remontá-la. Coloquei duas calças e duas blusas sob o macacão, preparei dois fumigadores de fumaça e encarei a batalha.

Levei mais umas 10 ferroadas, mas como estava meio anestesiado nem dei muita bola.

Quando cheguei em casa, minha mãe ficou apavorada e queria de toda maneira me levar ao hospital, mas eu não fui porque já tinha sido ferroado há mais de cinco horas e não havia nenhum risco de algo me acontecer. Depois de acalmada, contou 117 vergões de ferroadas no meu corpo.

Pena que na época, não tenhamos tirado uma foto, pois seria uma recordação muito legal. E dois dias depois, apenas tinha as 117 pontinhas de pús, onde havia sido ferroado.

Na semana seguinte voltei normalmente ao apiário e colhi 250 kg de mel. Por precaução, nem mexi naquele enxame para não irritá-las novamente.