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O ataque de abelhas africanizadas ao gado em volta do apiário

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Eram lá pelas três da tarde e eu, em pleno calorão de 35° estava revisando os enxames de abelhas para a colheita de mel, nos próximos dias.

Tudo tranqüilo nessa época de novembro, em que como os enxames estão cheios de mel e trabalhando ativamente na colheita de pólen e néctar, as abelhas ficam bem mansas.

Revisara oito colméias de abelhas africanizadas e faltavam apenas 02 daquele apiário.

Entre a menor, que aparentemente não tiraria mel algum, por ser muito pequena – umas 35 mil abelhas – e a gigante, de umas 80 mil abelhas africanizadas, preferi revisar a pequena colméia, já que não daria muito trabalho.

Deixei a maior para o final, pois geralmente grandes enxames dão um grande movimento de abelhas e chegam a assustar pelo zumbido que fazem, quando estão estressadas pelo manuseio dos caixilhos repletos de mel.

Mal abro a pequena caixa e vem a surpresa!

Embora tenha adotado todas as providências necessárias – fumaça, intervalo para acalmar, nenhum barulho, etc. – sou surpreendido por um ataque maciço de abelhas enfurecidas. Em um minuto, estava preto de abelhas nos braços, nas luvas, no véu da máscara, que quase me tampavam a visão.

Nem entendi direito, mas apicultor que é galo, não se amedronta com agressividade injustificada.

Sempre existe um motivo para tal agressividade e devemos agir para sanar o problema.

Depois da surpresa inicial, retomei a calma peculiar no trato das abelhas melíferas. Às vezes, você se assusta porque esta tão acostumado com a mansidão, que estranha até mesmo ter sido ferroado.

Passados alguns minutos, ao retirar alguns caixilhos descubro inúmeras realeiras prontas para nascer, e embora tenha verificado exaustivamente, não identifiquei postura da rainha e tampouco achei a “dita cuja”. Estava explicada a agressividade!

A rainha devia ter morrido há alguns dias e elas estavam desesperadas para proteger as novas “futuras candidatas” que estavam prestes a eclodir das células reais. Nessa época, o stress das abelhas é altíssimo, transformando qualquer enxame manso em verdadeiras “diabinhas de asas”.

Enquanto fazia a revisão, ouvi várias pancadas secas e não sabia o que era. Terminada a revisão daquela colméia, pretendia revisar o último enxame, mas ao dar uma olhada panorâmica pelo apiário, chamou-me a atenção diversos bois e vacas pinoteando em volta do apiário, inclusive alguns estavam amarrados numa estrebaria a uns 200 metros do apiário. Era dali que vinham as batidas.

Na confusão criada pela abertura do pequeno enxame, as abelhas alçaram vôos a longa distância e ao encontrarem o gado “suado e cheirando”, foi um “Deus nos acuda!” Acharam até galinhas e marrecos para atacar. As aves bateram em pernas para o capoeiral e se livraram das agressoras.

Os bois que estavam soltos, saíram pinoteando pelo campo, mas umas quatro vacas que estavam amarradas no estábulo, estavam sendo duramente atacadas. Não teriam salvação se eu não socorresse as coitadas.

Larguei tudo no apiário e desviando de algumas reses que disparavam e pinoteavam pelo pequeno potreiro, cheguei na estrebaria e a muito custo, consegui soltar as vacas que corcoveavam, coiceavam e chifravam as paredes do estábulo, tentando fugir das picadas das abelhas.

O mais grave do ataque de abelhas africanizadas (com genes de abelhas africanas) ao animais é que elas procuram a área dos olhos e do focinho para ferroar. Parecem saber que ali é mais dolorido, mas na verdade é um instinto ancestral. Os olhos piscam e refletem as nuances de luz e o focinho exala um cheiro desagradável – ambos irritam profundamente as abelhas. Aí esta o motivo da concentração de ataque nesses locais.

Soltas as vacas, o ataque continuava aos outros animais, porque o espaço do potreiro era pequeno e com poucos matagais onde os animais pudessem se esconder. Eles corriam em um longo círculo, mas acabavam passando perto do apiário novamente e novas abelhas atacavam os coitados.

Tomei uma medida drástica que me fez perder produção, mas garantiu a salvação dos animais. Fechei todas as colméias com serragem nos alvados, perturbando a colheita, mas reduzindo a saída de novas atacantes.

Aí, fumaciei o apiário todo com o fumigador de fumaça, gastando umas três cargas de serragem, que se alguém enxergasse de longe pensaria que era um incêndio. Com a fumaça excessiva, não restou outra opção ao enxame alucinado retornar à sua colméia para salvar alguma coisa do “suposto incêndio”.

Foram cerca de 2 horas de uma correria incessante, até que a situação acalmou. Restaram apenas umas dez cabeças de gado, com dezenas de ferrões nos olhos e focinhos, que chegou a dar pena dos bichos. E não havia o que fazer para ajudá-los.

Depois dessa, aprendi a lição. Ao ser duramente atacado por um enxame de abelhas – pequeno ou grande - desisto da revisão na hora e só retorno bem no fim da tarde, porque assim, embora ainda possa ocorrer o ataque das abelhas, logo escurece e o transtorno é menor. No dia seguinte, amanhecem “mansinhas da silva.”

O véu sumiu na revisão das abelhas africanizadas

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Logo no começo das minhas atividades apícolas em 1984, os equipamentos ainda estavam sendo desenvolvidos ou adaptados à realidade brasileira, sendo alguns muito precários.

Na maioria das vezes, víamos figuras e fotos de livros e acabávamos fabricando o equipamento, porque não havia no comércio para comprar.

Nessa função, como era difícil conseguir uma máscara de apicultor para lidar com as abelhas africanizadas e as que existiam eram caras demais, resolvemos fazer uma. Comprei o tecido, chapéu de palha e como não tínhamos experiência, seguimos as passagens de livros que diziam usar-se um véu preto, que achamos parecido com o de filó, para facilitar a visão do apicultor.

Com a destreza da minha mãe, exímia costureira, fabricamos a dita máscara para trabalhar com as abelhas. Colocamos uma tira de 10 cm x 20 cm de filó preto na frente do rosto e o resto de tecido de algodão grosso para impedir as ferroadas das abelhas.

Tudo funcionava muito bem quanto a visibilidade, segurança e ventilação que propiciava. Passados vários meses, não havia tido qualquer problema com o equipamento “fabricado por nós.”

Só que a gente só descobre os defeitos das coisas quando se passa por um aperto ou emergência, condição em que tudo é posto à prova nas suas condições limites.

Certo dia, lidando com uma colméia de africanizadas cujo ataque das abelhas era extremamente feroz, aumentei o uso do fumigador para controlar as abelhas na base de rolos de fumaça. Embora estivessem envolvidas nas atividades de coleta de pólen, néctar e polinizando as flores, elas me cobriam inteiro nos braços, rosto e em volta de toda a cabeça sobre a máscara . Passado algum tempo, acabou a carga de serragem do fumigador e eu teria que abastecê-lo de serragem para continuar trabalhando.

Deixei a caixa aberta, pois retornaria alguns segundos depois e me afastei alguns metros para reduzir a agressividade das abelhas. Abri o fumigador, me abaixei sobre a boca do fumigador para ver como estavam as brasas e para avivar o fogo, dei uma apertadinha no fole do mesmo. Foi um caos!

Subiu uma lufada de fagulhas incandescentes de serragem, não muito grandes, mas que literalmente pulverizaram o véu de filó da máscara, deixando-me completamente desprotegido no rosto. Sorte que estava afastado do ataque das abelhas e de cabeça baixa.

Em segundos, algumas abelhas entraram pelo grande rombo e atacaram a minha cara. Agarrei de uma pegada só o fumigador e o saco de serragem e saí em desabalada corrida, morro abaixo, tapeando as abelhas da cara e do macacão. Tomei umas dez ferroadas no rosto, enquanto entrava num capoeiral para me esconder.

Passados uns cinco minutos, carreguei o fumigador e me enfiei numa nuvem de fumaça que afugentou a maioria das abelhas que permanecia grudada no macacão. Bati a máscara com firmeza para derrubar as abelhas ainda agarradas ao chapéu e ao macacão e saí em nova corrida até chegar ao carro, onde entrei e arranquei para ir mais longe.

Parei cerca de 1 km longe e aproveitei que quase não tinha mais abelhas para tirar a máscara e com a ajuda de um canivete, remover os ferrões na pálpebra direita, no nariz, no pescoço e nas bocechas. Do filó, não restara mais que 01 centímetro na abertura da máscara.

Nessas alturas estava parecendo o “Bozo”, com a cara duas vezes maior que o normal. Depois de um tempo, a dor, embora fosse muito forte, era menor que a vontade de rir do ocorrido.

Ainda bem que já estava relativamente habituado ao veneno das abelhas africanizadas.

É como você estar totalmente protegido atrás de um vidro e no segundo seguinte, o vidro desmaterializar-se no ar. Para descrever o que senti na hora, só lembro de uma expressão que descreve o que senti na hora. - “Danou-se”. Como diria o boi Otis no filme O segredo do animais.

Tive que reformar a máscara de noite e voltar no dia seguinte de manhã para fechar a caixa, e o enxame estava ainda mais irritado que no dia anterior.

Descobri depois, que o tal véu preto que aparecia nas fotos, era de tela plástica, tipo as de mosquito ou tela de sombrite, que é 100 vezes mais resistente ao fogo.

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Cuidados com a ferroada de abelhas ou marimbondos

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Escrevi um post entitulado Porque as abelhas melíferas atacam as pessoas e um amigo comentou que eu havia afirmado que havia tomado 100 ferroadas de abelhas num dia. Falou que não acreditava nisso.

Para esclarecer, realmente eu nunca tomei 100 ferroadas de abelhas africanas. Seu veneno é mais forte do que o das européias.

Eu tomei 117 ferroadas de abelhas africanizadas num grande acidente no apiário, há uns 15 anos atrás. E já era acostumado a levar 05 ou 10 ferroadas por semana. Além disso, não se pode dizer que tenham sido 117 ferroadas inteiras, porque a maioria das abelhas apenas conseguiram dar uma beliscada do ferrão através do tecido do macacão. Então, o veneno inoculado foi mínimo.

O contexto do post era de que 20 caixas de abelhas apis mellifera de raças européias (cerca de 1 milhão de abelhas) davam só uma ferroada numa pessoa, enquanto que uma caixa de abelhas africanas (30 mil abelhas) dariam 100 ferroadas nessa mesma pessoa. Nessa proporção, ser atacado por 20 caixas de abelhas africanas seria o mesmo que um atestado de morte ao apicultor.

Estudos científicos indicam que um ser humano pode suportar até 400 ferroadas, mas eu é que não vou fazer um teste desses. Acredito por experiência que pode ser verdade, porque quem é acostumado, suporta muito bem uma grande quantidade.

Também a formulação do veneno das abelhas africanizadas é uma mistura do veneno das abelhas européias e africanas, com uma “média intensidade” de risco.

É claro que utilizamos equipamentos de proteção como máscara, luvas, botas, calças e casacos ou macacão de proteção. Porém, em função do nosso clima mais quente, não podemos utilizar roupas muito grossas, porque já é quase insuportável trabalhar todo vestido a uma temperatura de 30° a 35° no verão.

Então, usamos roupas leves, com boa ventilação, e se a abelha for persistente e tiver a paciência de achar uma brechinha na fibras do tecido, ela ferroa mesmo. Também, às vezes, rasgamos acidentalmente o macacão ou a máscara e as abelhas entram pelo buraco e nos ferroam na perna ou na barriga. Como as européias são pacíficas, isso ocorre esporadicamente quando lidamos com elas. Lembrei agora de uma história engraçada que aconteceu comigo sobre isso. Leia O véu sumiu!

O normal de um apicultor é ser ferroado nas mãos, pois muitos preferem trabalhar de mãos nuas por causa da sensibilidade. Ainda assim, dificilmente levamos mais de 2 ou 3 ferroadas por semana. as abelhas preocupadas em coletar pólen e néctar, exercendo ainda a polinização das plantas, estão ocupadas demais para dar atenção ao apicultor.

Essas injeções esporádicas de veneno vão dando ao organismo do apicultor uma resistência impressionante ao veneno. Para quem é acostumado, o único sintoma que identifica que você foi ferroado é uma bolinha de pus do tamanho de uma cabeça de alfinete no local. Não incha nem quando leva na ponta do nariz (essa já aconteceu comigo). Depois vem uma coceira danada que as vezes deixa você em apuros, porque demora para passar. Para evitar essa coceira, costumo passar Bicarbonato de Sódio (aquele condimento para bolos) sobre a ferroada, logo após tirar o ferrão. Levo no bolso um potinho e quando sou ferroado, esfrego um pouco.

Já a dor inicial é sempre a mesma. Parece uma espetada de um arame em brasa que dá uma dor muito forte no local. Tome uma ou tome 200 ferroadas, a dor de cada uma é sempre a mesma. A diferença é que para quem é acostumado a dor passa meio minuto depois.

Já para as pessoas não acostumadas ou para os alérgicos ao veneno das abelhas, uma única ferroada pode até matar, porque provoca reação em vários órgãos, podendo levar ao fechamento da glote (não consegue respirar) e choque anafilático. Exemplo do meu tio, que queria lidar com abelhas, mas a cada ferroada ele tinha calafrios, inchaço enorme e depois ele coçava até sair sangue. Levou uma ferroada a cada semana e depois da terceira, abandonou a atividade.

Se você levar outra picada, procure tirar o ferrão com a unha ou com uma faca, sem apertar a bolsa de veneno (que injetará todo o conteúdo no seu organismo). Feito isso, aplique o Bicarbonato de Sódio e depois aplique gelo no local. Também pode aplicar pomadas anti-alérgicas no local. Lembre-se: a dor vai passar alguns minutos depois e o inchaço e a coceira desaparecerão em meio dia. Use gelo para aliviar. Não se apavore.

Para quem nunca tomou ferroadas e não sabe se é alérgico, fique atento. Se você não sabe sua reação, avise as pessoas próximas sobre o fato de nunca ter sido ferroado por abelhas ou marimbondos. Tem gente que acha que é frescura, mas o alérgico realmente pode morrer por uma única ferroada, porque somente poderá ser salvo se chegar a tempo num hospital e for medicado. Se as pessoas próximas não se derem conta disso, pode ser tarde demais.

No caso específico de marimbondos, o problema é mais grave porque além do veneno ser mais forte, o marimbondo pica diversas vezes a mesma pessoa porque seu ferrão não saí do corpo como ocorre com a apis mellífera, que morre ao ferroar a primeira vez.

Em breve, posto as histórias engraçadas sobre isso.

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