Mobilização para equipar uma creche em uma semana
terça-feira, 12 de agosto de 2008Ajudávamos seguidamente uma congregação de freiras que atuam em um bairro muito pobre. Como levávamos sempre cestas básicas; roupas, móveis e coisas que não nos serviam mais, as freiras agradeciam muito e nunca nos pediam nada.
Um dia, eu pedi: - “Irmãs, o que vocês precisam?” Ouvi apenas:
- “Vocês já nos ajudam tanto. Nós temos uma outra creche … que começamos a dois anos e atende 50 crianças vítimas de TODO tipo de violência doméstica (o TODO é isso mesmo que você deve ter imaginado - sexual, drogas, agressão e demais … mazelas). Lá a situação é bem precária.”
Fui visitar a tal creche e fiquei pasmo… “Toquinhos de gente de 03 a 06 anos”.
Não tinham classes. Não tinham almofadas. Fogão à gás desmanchando. Não tinham tapete. Sentavam no chão. Comiam em pratos segurando na mão. Não tinham muitos brinquedos. Não tinham prateleiras e armários para guardar os brinquedos. Não tinham armário para os alimentos - os pacotes de arroz e feijão ficavam no chão. Não tinham panelas decentes. Não tinham livros e brinquedos infantis. Não tinham CD´s de músicas infantis (aliás, não tinham nem o aparelho). Não tinham pátio para brincar (barro de terra vermelha). Não tinham parquinho. Só tinham a cara e a coragem das irmãs e voluntárias do local.
Pedi que fizessem uma lista do que precisavam. Mas uma lista bem completa. Eu já havia percebido que faltava muita coisa, mas era melhor que elas relacionassem o que precisavam para o “melhor funcionamento possível da creche”.
Demorou uma semana para fazerem a lista - acho que tanto pelo constrangimento das irmãs em pedir, quanto por provavelmente acharem que seria mais uma lista inútil que fariam e que acabariam não conseguindo nada.
Para facilitar a arrecadação das doações, dividi os bens mais caros em partes pequenas. Para fazer 4 mesinhas de fórmica para as crianças, tinha um orçamento de R$ 1,5 mil. Então pedi doações parciais dos 16 pézinhos de metal, 03 folhas de compensado de 3 cm, 03 folhas de fórmica colorida, mão-de-obra e a cola de fórmica e parafusos. Dêu muito certo.
Durante essa mesma semana, liguei para amigos, lojistas onde era cliente, falei com colegas de trabalho e de faculdade e no final, somando tudo, conseguimos quase R$ 8 mil de doações (se fossemos comprar tudo a preço de mercado).
Um empresário doou uma escrivaninha. Outro, a cadeira. Outro, a mão-de-obra dos colchonetes e outro o tecido e espuma. Outro, o compensado das mesinhas. Outro, a fórmica e os parafusos. Outro, os pés das mesinhas. Um marceneiro, doou a mão-de-obra para cortar, montar e colar a fórmica nas mesas. Um doou tijolos para cercar o pátio. Outro doou cimento e areia para rebocar o prédio. Outro deu os corrimões da escada. Amigos doaram livros, panelas, brinquedos, cartazes infantis. Colegas doaram algumas horas para construir estantes e armários. Um grupo de funcionários públicos, doou o aparelho de CD. Um doou o que iria pagar de dízimo anual.
Conseguimos material elétrico para iluminar melhor as salas. Um lojista doou um tapete 2mx3m, novo com 3 cm de espessura (chique prá caramba - não lhe servia mais porque tinha uma manchinha no meio). Um empresário doou o forro de PVC. Um, uma caixa dágua. Outro, as lajotas para uma nova sala de aula. Outro uma máquina de macarrão para ensinar as mães.
Menos de 30 pessoas, doaram serviços ou materiais baratíssimos (preço de custo), ou doaram móveis e materiais defeituosos, ou fora de linha, ou ponta de estoque, ou encalhados. Alguns cobraram preço de custo. Outros doaram o pagamento desses custos.Quando a lista chegou, as doações já estavam quase completas e sendo entregues. Mais algumas ligações e completamos a lista.
Ao final de uma semana, tínhamos conseguido tudo que a creche precisava. Seria totalmente mobiliada, aparelhada, reformada e pintada.
Pequenas contribuições e sobras de uns, iluminando a vida sofrida de 50 crianças a cada ano. Até nos ofereceram uma data para inauguração, homenagem aos doadores e a “tradicional sessão de fotos”.
Nenhum doador aceitou aparecer. Quase todos quando doaram, já o haviam feito com a “condição de não aparecer”.
Fiquei surpreso, não com a quantidade de doações, mas com a forma como foram obtidas. Foi como se estivéssemos construindo um murro de tijolos e cada doador tivesse dado alguns tijolos, ou o cimento, ou a areia. Outros carregaram os tijolos, outros a mão-de-obra.
Me pergunto até agora, como certas obras sociais demoram meses, anos às vezes, para conseguir um fogão usado.
“Talvez seja porque não tenham máquina fotográfica…”
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